O mercado de delivery de comida no Brasil tem vivido uma transformação relevante, marcada por acordos de exclusividade entre plataformas e restaurantes. Essas parcerias são uma resposta à acirrada concorrência, especialmente após a entrada de novos players no país. Com estratégias que vão além da simples intermediação de pedidos, plataformas se aproximam dos estabelecimentos oferecendo visibilidade, taxas competitivas e, principalmente, investimento financeiro, mediante exclusividade total ou parcial.

Acordos exclusivos e vantagens competitivas

Segundo especialistas do setor, como Marcio de Oliveira Junior, ex-conselheiro do Cade e consultor da Charles River Associates, esses acordos proporcionam benefícios mútuos. Ao garantir investimentos para melhorias em estrutura, marketing e operações, os restaurantes conseguem crescer mais rápido, enquanto as plataformas ampliam sua base de parceiros e consumidores. “Ao fortalecer estabelecimentos parceiros, as plataformas aumentam sua massa crítica e contribuem para o desenvolvimento de toda a cadeia”, avalia Oliveira Junior.

Empreendedores também destacam os efeitos positivos dessas parcerias. Bruno Salles, COO da Fábrica de Bolo Vó Alzira, relatou que, após fechar um acordo de exclusividade parcial com a 99Food, a participação das vendas de delivery subiu de 18%-20% para cerca de 30%-32%. O aporte recebido foi destinado principalmente a ações de marketing e melhorias internas, acelerando objetivos preexistentes da marca.

O papel da exclusividade parcial e da concorrência

A economista Anna Olimpia de Moura Leite, diretora da LCA Consultoria, afirma que o modelo de exclusividade ajuda pequenos e médios negócios a se capitalizarem, sem a necessidade de empréstimos caros. Ela destaca o efeito pró-concorrencial desses contratos, desde que o ambiente permaneça competitivo. O controle do chamado “efeito carona” seria um dos principais benefícios, impedindo que outras plataformas se beneficiem de investimentos realizados pela concorrente.

A experiência da pizzaria Don Rafaello ilustra essa dinâmica. Segundo seu proprietário, Rafael Bachette Maia, o acordo reduziu custos de aquisição de novos clientes, permitiu acesso a listas exclusivas e dobrou a operação da rede em menos de um ano, além da possibilidade de entrada em novos segmentos, como hambúrgueres.

Regulação, Cade e exemplos internacionais

No Brasil, cabe ao Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) avaliar os limites desses acordos para assegurar livre concorrência. Determinações recentes admitiram a manutenção de exclusividade parcial para empresas sem posição dominante, como a 99Food, que detém menos de 20% do mercado, segundo nota técnica. Para especialistas, a ausência de restrição total torna viável a entrada de novas plataformas e estimula investimentos em toda a cadeia — benefício que, segundo Bruno Rossini, diretor da 99, se estende também a entregadores e consumidores.

Internacionalmente, exemplos como o da Finlândia mostram que exclusividade pode ser vital à sobrevivência e diferenciação de players menores. Já na Espanha, autoridades concluíram que acordos de escopo limitado não prejudicam o mercado. O consenso é que a análise deve ser caso a caso, conforme o nível de concentração e os resultados práticos observados.

Perspectivas para o setor de delivery no Brasil

A Associação Nacional de Restaurantes (ANR) pontua que, em um mercado de alta rotatividade, a possibilidade de negociar livremente condições de exclusividade pode significar a sobrevivência e expansão de negócios locais. Para especialistas, preservar espaço para novos entrantes, enquanto se mantém negociação aberta com plataformas de delivery, fortalece restaurantes, consumidores e entregadores.

O Cade segue acompanhando o setor, especialmente os contratos de plataformas como a 99Food em São Paulo. Com decisões embasadas em dados concretos e impactos percebidos, o órgão pode estabelecer diretrizes que equilibrem o incentivo à inovação com a proteção da concorrência.

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