Executivos dos maiores bancos do Brasil alertam que a inadimplência no crédito ao consumidor deve se manter em patamares elevados ao longo de 2026, projeção que desafia as expectativas de melhora desenhadas no início do ano. A persistência de taxas de juros historicamente elevadas e incertezas econômicas globais tornam o cenário ainda mais desafiador para o sistema financeiro nacional.

Inadimplência atinge máxima histórica no país

Segundo o Banco Central do Brasil (BCB), a inadimplência no crédito ao consumidor alcançou 5,6% em maio, mantendo o recorde em junho. O índice atual supera os níveis observados durante a recessão de 2015-2016 e a pandemia de Covid-19, refletindo pressões sobre orçamentos familiares e empresas em meio aos juros elevados que vigoram há quatro anos.

Apesar de programas de renegociação de dívidas promovidos pelo governo federal, o impacto sobre os índices de inadimplência tem sido limitado. Além dos altos juros, fatores como as consequências da guerra no Irã e as incertezas fiscais domésticas têm dificultado a redução significativa desses patamares, levando as projeções do mercado a revisarem para cima o fechamento da Selic no ano — atualmente ao redor de 14%, de acordo com projeções de analistas após a última reunião do Copom em 5 de agosto.

Bancos demonstram cautela em seus resultados

No balanço do segundo trimestre de 2026, Santander Brasil (SANB11) foi o primeiro grande banco a registrar queda nos lucros e expressar, de forma aberta, a preocupação com a inadimplência. O tom mudou de um otimismo cauteloso para o pessimismo sobre margens e qualidade da carteira de crédito.

O diretor financeiro do banco, Carlos Muñiz, destacou que as margens ajustadas ao risco dificilmente mostrarão melhora significativa ainda neste ano. "Se eu tivesse que dar um prazo, provavelmente seria no início de 2027, e não no final deste ano", afirmou em teleconferência com analistas.

Já no Itaú Unibanco (ITUB4) e no Bradesco (BBDC4), a postura é de maior otimismo quanto à resiliência das carteiras, especialmente frente ao público de alta renda, mas ambos os bancos mantêm cautela em relação ao cenário macroeconômico. O Itaú vem limitando concessões, focando em clientes mais robustos e evitando expansão desenfreada do crédito para novos segmentos.

Ações do governo e limitações dos programas de renegociação

Com cerca de um terço da renda dos brasileiros atualmente comprometida com dívidas, o governo federal implementou mais um programa nacional de renegociação em maio de 2026. O objetivo é facilitar o pagamento de débitos, mas o engajamento dos consumidores e o resultado sobre a inadimplência foram inferiores ao esperado.

Levantamento do UBS BB aponta que mais de 9,8% dos empréstimos renegociados há 90 dias já voltaram a ficar inadimplentes no sistema bancário, um salto em relação aos 3% da edição de 2023 do programa. Entre os obstáculos, bancos privados citam a dificuldade de comprovação de renda no caso de trabalhadores informais e o fato de iniciativas governamentais não atingirem as causas estruturais do alto endividamento, como o uso de crédito como complemento de renda.

Tendências e próximos passos para o setor

Apesar da redução de 25 pontos-base da Selic promovida pelo Copom na semana passada, a persistência de riscos fiscais e externos limita a perspectiva de novos cortes expressivos nos juros. Executivos bancários e analistas são unânimes em afirmar que o ambiente de crédito deve permanecer desafiador em 2026, com possível melhora apenas a partir de 2027, caso as condições macroeconômicas evoluam positivamente.

O setor bancário segue atento às políticas públicas, ao comportamento da inadimplência e à resposta das famílias aos programas de renegociação. Para acompanhar as próximas decisões do Banco Central e o impacto nos principais indicadores do sistema financeiro brasileiro, fique por dentro das últimas análises e notícias do setor em brazileconomy.world.