O Brasil se destacou em 2025 como o país que mais recebeu investimentos diretos da China, somando US$ 6,1 bilhões, segundo levantamento recente do Conselho Empresarial Brasil-China. O anúncio foi comemorado por autoridades em Brasília, que enxergam no dado a reafirmação do país como destino estratégico do capital asiático. No entanto, apesar dos números expressivos, os recursos que determinam o futuro industrial global ainda permanecem concentrados nos países da Ásia.

Cadeia produtiva global favorece países vizinhos à China

No primeiro semestre de 2026, a Administração Geral das Alfândegas da China registrou comércio de cerca de R$ 3,36 trilhões com a Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean), refletindo crescimento de 18,2%. Destaca-se, nesse montante, a alta de 24,5% nas vendas de bens intermediários, componentes e insumos, que passaram a representar dois terços do total. Essa dinâmica mostra a formação de cadeias produtivas regionalizadas, que beneficiam majoritariamente países vizinhos da China.

Enquanto isso, a América Latina – e o Brasil em especial – se mantêm como exportadores de insumos, como minério de ferro, e importadores de produtos manufaturados. A integração produtiva industrial com a China permanece limitada, o que reduz a atração de fábricas de peças e componentes para o solo brasileiro.

Investimento chinês: volume, mas com foco em commodities

Quando se analisa a distribuição dos US$ 6,1 bilhões investidos pela China no Brasil em 2025, os setores predominantes são eletricidade (US$ 1,79 bilhão), mineração (US$ 1,76 bilhão) e automotivo (US$ 965 milhões). O levantamento também indica que, embora existam exemplos como o anúncio da GWM de investir R$ 4,6 bilhões em uma segunda fábrica em território nacional, tais projetos ainda têm motivações ligadas à necessidade de atender ao mercado local e evitar tarifas de importação, como o imposto de 35% que voltou a incidir sobre veículos eletrificados.

O movimento chinês de ampliar fábricas na Ásia é corroborado por dados da Universidade de Fudan, que revelam crescimento de 81,3% na construção chinesa no Sudeste Asiático, enquanto destinos tradicionais como Malásia se tornam favoritos para empresas da China devido à maior integração produtiva.

Desafios para o Brasil agregar valor

A trajetória recente demonstra que a penetração dos produtos chineses desarticulou cadeias industriais brasileiras nas últimas décadas. Para especialistas, como o economista Célio Hiratuka da Unicamp, a saída está justamente em elevar o grau de integração produtiva local. O país precisa avançar do papel de fornecedor primário e conquistar capacidade de fabricar insumos e peças, aumentando seu poder de barganha frente aos grandes investidores globais.

No atual cenário, os aportes chineses continuam relevantes para setores de infraestrutura e commodities, mas não alteram, por ora, o desenho industrial global, que privilegia centros asiáticos de produção intensiva. Diante das prioridades do 15º Plano Quinquenal chinês, que mira cadeias globais de alta tecnologia até 2030, surge a necessidade de o Brasil rediscutir seu papel na nova ordem industrial.

O que esperar para os próximos anos?

O desafio brasileiro será negociar, com a China, uma inserção mais qualificada na cadeia global de valor, superando o atual modelo de exportador de matéria-prima e mercado protegido por tarifas. Para avançar, será fundamental estruturar políticas que fomentem fornecedores nacionais e promovam inovação industrial.

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