O cenário econômico brasileiro reacendeu o alerta para o avanço do endividamento das famílias, independentemente do desemprego em baixos patamares. Belmiro Gomes, CEO do Assaí, uma das maiores redes de atacarejo do país, afirma que o peso dos juros altos e o crescimento das apostas esportivas têm pressionado severamente o orçamento familiar, em especial das classes de menor renda.

Pressão sobre o orçamento das famílias

Segundo Gomes, embora a taxa de desemprego esteja baixa, o nível de endividamento da população atingiu níveis preocupantes. A avaliação do executivo parte de sua observação direta do comportamento de consumo no Assaí, que atende mensalmente cerca de 40 milhões de brasileiros, incluindo um milhão de micro e pequenos empresários.

O principal desafio apontado pelo CEO está no endividamento das famílias de baixa renda. "O endividamento das classes sociais mais baixas é um dos maiores desafios. Anos seguidos de juro muito elevado têm cobrado um preço", destaca Gomes, ao analisar o impacto de juros persistentemente altos. Ele ressalta ainda que esse fenômeno aprofunda desigualdades: enquanto uma parcela da população se beneficia de renda fixa, milhões de brasileiros endividados enfrentam um dos maiores custos de crédito do mundo.

Efeitos das apostas esportivas e consumo

Outro fator relevante destacado por Gomes é o crescimento das apostas esportivas, que se popularizaram no país. O CEO cita estudos que relacionam a prática ao aumento do endividamento, especialmente entre jovens e aficionados por futebol, facilitada pela disponibilidade 24 horas através dos aplicativos móveis. O impulso pelas apostas, somado ao orçamento apertado, contribui para agravar a situação financeira de muitas famílias.

Reflexos no varejo e dados preocupantes

O impacto pode ser observado no desempenho do setor: de acordo com Gomes, no quarto trimestre de 2025, estabelecimentos voltados à alta renda cresceram nominalmente 4%, enquanto formatos voltados à baixa renda caíram 9%, gerando uma diferença de 13 pontos percentuais. O executivo ressalta que esse descolamento não era visto há muitos anos, ilustrando o peso dos juros altos na diminuição do consumo dos mais vulneráveis.

Crédito caro afeta pequenos empresários e planos de expansão

Para os micro e pequenos empreendedores, que representam 40% do faturamento do Assaí, o cenário de crédito caro dificulta a formação de estoques e amplia a frequência de compras apenas para manutenção dos negócios. Já a própria empresa precisou frear investimentos e redirecionar esforços para reduzir a dívida, após desembolsar R$ 7 milhões por dia em juros em 2025.

Próximos passos e preocupação social

A estratégia do Assaí para 2026 é seguir priorizando o corte de dívida e as margens, mesmo com crescimento mais lento. Gomes alerta, porém, que o maior risco é o custo social elevado, já que a manutenção da Selic alta pode trazer danos duradouros para a base da pirâmide social brasileira. O pedido do executivo é por políticas que aliviem o peso dos juros sobre quem mais sofre.

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