O Brasil registrou um crescimento expressivo no acesso ao crédito entre 2021 e 2025, alcançando 122,8 milhões de consumidores habilitados para operações financeiras, segundo levantamento das empresas Equifax BoaVista, Acordo Certo e CDL Porto Alegre. Apesar do avanço que representa a expansão da inclusão financeira, a pesquisa acende um alerta para o aumento da inadimplência, refletindo desafios estruturais para o mercado e para a saúde financeira das famílias.
Expansão do Crédito e seus Números Recentes
No período analisado, o número de brasileiros com crédito ativo saltou de 96,8 milhões para 122,8 milhões — crescimento de 27%. O saldo total das operações, impulsionado por maior volume e valor médio, também subiu significativamente, de cerca de R$ 2,7 trilhões para R$ 4,47 trilhões (alta de 63,7%). Essa movimentação revela não apenas mais oportunidades para consumo e investimento, mas um papel cada vez maior do crédito no orçamento familiar brasileiro.
O levantamento utilizou dados do Sistema de Informações de Crédito (SCR) do Banco Central, cobrindo de janeiro de 2021 a dezembro de 2025. Para captar a percepção do público, ouviu 2.533 usuários da plataforma Acordo Certo entre maio e junho de 2026.
Inadimplência Cresce em Ritmo Acelerado
Apesar da maioria dos tomadores cumprir seus compromissos — 73,7% estavam adimplentes em 2025 — a inadimplência avançou substancialmente. O percentual de pessoas com restrições de crédito saltou de 19,9% para 26,3% no período, e o saldo total das dívidas em atraso saltou de R$ 54 bilhões para impressionantes R$ 177,6 bilhões.
Além disso, o comprometimento da renda familiar com contratos de crédito chegou a 86,1% em 2024, recuando para 81,1% em 2025, mas ainda acima dos 70,3% registrados em 2021. Especialistas como Oscar André Frank Junior, da CDL Porto Alegre, alertam que essa ligeira redução recente pode ser apenas reflexo de ajustes no consumo e não uma mudança estrutural.
O Paradoxo da Inclusão Financeira
Segundo o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, parte do aumento do endividamento decorre da maior inclusão financeira, especialmente para consumidores de baixa renda. Fernando Iódice, CEO da Acordo Certo, classifica o fenômeno como o "paradoxo da inclusão": mais acesso ao crédito, mas também maior exposição a riscos financeiros.
A percepção dos consumidores acompanha esse movimento. Quase metade dos entrevistados (49,1%) sentiu maior facilidade para obter crédito nos últimos cinco anos, e 48,8% relataram melhora em sua vida financeira, seja pelo aumento do poder de compra, ausência de dívidas ou maior capacidade de poupança. Ainda assim, 72,3% reconhecem que o risco de endividamento também aumentou.
Desafios para o Futuro das Famílias Brasileiras
As camadas mais vulneráveis à inadimplência continuam sendo os jovens e pessoas com renda de até dois salários mínimos, mais sujeitos a oscilações no mercado de trabalho. Henrique Moraes, CEO da Equifax BoaVista, reforça que a expansão do crédito é vital para o desenvolvimento, mas precisa ser acompanhada de análises assertivas sobre a real capacidade de pagamento dos consumidores.
O cenário mostra que a democratização do crédito exige políticas e mecanismos mais sofisticados de educação financeira, análise de risco e estratégias para evitar o aumento da inadimplência.
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