A desaceleração da economia chinesa está mudando radicalmente o perfil do emprego no país e também despertando atenções no cenário internacional. Em 2025, a China atingiu a marca de 53 milhões de pessoas trabalhando como motoristas e entregadores de aplicativo, um aumento de 10 milhões em dois anos, segundo dados do Centro de Pesquisa sobre Novas Formas de Emprego da China.
Economia em desaceleração impulsiona empregos temporários
O enfraquecimento da economia da China é reflexo direto de crises prolongadas no setor imobiliário, do consumo desaquecido e do crescimento econômico abaixo do padrão histórico. Esses fatores levam muitos trabalhadores a buscarem alternativas na chamada "gig economy" — modelo no qual o trabalho temporário, autônomo e informal ganha espaço em detrimento dos empregos tradicionais.
Saturação e precarização do trabalho por aplicativo
Em cidades como Shenzhen, o setor de transporte por aplicativo já está saturado. O número de trabalhadores disponíveis ultrapassa a demanda por corridas e entregas, pressionando os rendimentos. Motoristas e entregadores relatam jornadas extenuantes de até 11 horas diárias e redução de 20% a 50% nos valores pagos por serviço. Em Guangzhou, por exemplo, quem dependia desse tipo de renda tem enfrentado oscilações mensais que variam de 2 mil yuans (aprox. R$ 1.500) até 13 mil yuans (aprox. R$ 10 mil), de acordo com o volume de trabalho e custos.
Consumo e perspectivas econômicas afetados
Apesar da taxa oficial de desemprego urbano estar próxima de 5%, economistas alertam para a enorme subestimação do subemprego e do desalento. O encolhimento da força de trabalho — que caiu desde 2015, quando ultrapassava 800 milhões de pessoas —, somado ao crescimento tímido dos salários, agrava o desafio: em 2025, o aumento salarial caiu para 3,4%, o menor nível já registrado.
A migração de trabalhadores de setores tradicionais (construção, manufatura) para aplicativos ocorre também pela dificuldade de recolocação nesses setores. O ingresso de graduados universitários, impulsionado por um contingente recorde de formandos (mais de 12 milhões em 2025), amplia ainda mais a competição por vagas urbanas e temporárias.
Desafios da proteção social e impacto global
Analistas do HSBC e Standard Chartered apontam para problemas de instabilidade de renda, falta de proteção trabalhista e baixa cobertura de seguridade social entre os trabalhadores por aplicativo. Essa precarização diminui a disposição para o consumo, afetando negativamente a estratégia econômica do governo chinês, que prioriza o estímulo à demanda doméstica.
No longo prazo, só uma recuperação consistente da demanda interna e maior dinamismo econômico poderão reverter esse quadro — necessário para que o emprego e os salários possam retomar um ritmo mais estável.
A experiência chinesa serve de alerta para outros países emergentes, inclusive o Brasil, onde o avanço da tecnologia, automação e flexibilização das relações de trabalho vêm mudando rapidamente o mercado.
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