A CVC, uma das maiores empresas de turismo do Brasil, atravessa uma das fases mais difíceis de sua história recente. Após ter sido avaliada em R$ 10 bilhões em 2019, a companhia viu seu valor de mercado encolher para menos de R$ 1 bilhão em 2026, representando uma queda de aproximadamente 90% em apenas sete anos. O preço das ações desabou de R$ 60 para R$ 1,40, uma desvalorização que supera os 97%.

Contexto: transformação digital e problemas acumulados

A mudança radical no comportamento dos consumidores brasileiros impactou diretamente o modelo de negócios da CVC. O cliente passou a dar preferência pelas compras de viagens pela internet, enquanto a empresa insistia em um formato de lojas físicas. Com o tempo, a digitalização se consolidou, exigindo adaptações no setor. No entanto, segundo especialistas, como a professora Mariana Aldrigui, da USP, atribuir a perda de valor apenas à migração digital seria simplista. Ela ressalta que houve uma falha na comunicação e na apresentação do produto a uma nova geração de consumidores.

Some-se a isso as dificuldades internas da empresa: em 2020, a CVC revelou distorções contábeis que somaram R$ 362,4 milhões. Além disso, precisou lidar com o endividamento crescente, altas taxas de juros no Brasil e custos elevados no transporte aéreo, fatores que fragmentaram ainda mais sua estabilidade.

Aposta no "figital" e novo perfil de franquia

Buscando reagir, a CVC adaptou seu modelo ao conceito "figital" — mesclando presença digital e física. O consumidor inicia a jornada online e, muitas vezes, fecha a compra com o suporte de um agente em loja. Hoje, segundo a empresa, até 60% do fluxo nas lojas é originado por canais digitais.

Outra estratégia foi descentralizar suas franquias: o foco passou das grandes lojas em shoppings para unidades menores e franquias em cidades do interior. Em 2025, foram abertas 160 novas lojas, mais da metade fora das capitais.

Balanço financeiro e desafios recentes

Apesar das tentativas de ajuste, os resultados ainda refletem dificuldades. O balanço do segundo trimestre de 2026 apresenta uma receita líquida de R$ 332,7 milhões, retração de 4,5% em relação ao ano anterior, e prejuízo líquido de R$ 72,5 milhões — agravamento de 56,2%. Por outro lado, houve geração de R$ 35,5 milhões em caixa operacional.

Segundo o economista Victor Kietzmann, especializado em small caps, a CVC ainda sofre os impactos de problemas acumulados e de um cenário de juros altos. As dívidas somam cerca de R$ 400 milhões em debêntures atreladas ao CDI, das quais R$ 80 milhões já foram quitados. Dificuldades extras vieram após a pandemia, quando a empresa precisou captar recursos para sobreviver, elevando ainda mais seus custos financeiros.

Pressão do mercado e futuro

Movimentações recentes, como a atuação da Apex Partners — gestora investigada por suspeitas de fraude que chegou a deter 15% das ações, reduzidas agora para menos de 8% — ampliaram a volatilidade dos papéis, mas especialistas apontam que esse efeito pode ser passageiro.

A recomposição da CVC, segundo analistas, depende não só da reestruturação interna, mas também do ambiente macroeconômico brasileiro, marcado por juros elevados, menor disponibilidade de crédito e restrições ao consumo.

A direção da CVC não comentou as recentes movimentações até o fechamento do artigo. O mercado segue atento aos próximos balanços e ao desempenho da empresa nas novas iniciativas digitais e de franquias, fatores que podem indicar uma possível estabilização ou recuperação.

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