O setor de turismo em Portugal, responsável por movimentar boa parte da economia nacional, entrou em um período de desaceleração após sucessivos anos de recordes. A entrada de turistas, que tradicionalmente triplicava a população do país europeu, deu sinais de estabilidade e os gastos de visitantes também diminuíram, indicando um novo momento para a atividade.
Estabilização após anos de crescimento acelerado
De acordo com dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) de Portugal, o país registrou 2,5 milhões de turistas a mais em 2024 em relação ao ano anterior, crescimento de 9,3%. Já em 2025, o avanço entre visitantes estrangeiros caiu para 3,3%. O volume de estrangeiros no país estacionou próximo a 30 milhões por ano, quase três vezes o total de habitantes portugueses.
A taxa de crescimento tem perdido força: em 2026, os dados preliminares apontam aumento de apenas 3,1% no número de visitantes e 2% nas pernoites, enquanto as receitas tiveram avanço de 7,7%. O presidente do órgão representativo do turismo no Algarve, André Gomes, acredita que esse cenário deve se repetir.
Mudança de perfil: turistas mais cautelosos e gastos mais baixos
Apesar de o fluxo de visitantes continuar elevado, o comportamento mudou. Há relatos de restaurantes e hotéis menos cheios, mesmo durante o verão europeu. Segundo profissionais do setor, como Sofia Maia, proprietária de hotel no Porto, a ocupação de quartos permanece estável, mas a movimentação em restaurantes caiu.
Custos altos também influenciam: praias e refeições atingem preços que ultrapassam 100 euros por pessoa, tornando alternativas como compras em supermercados mais atraentes para turistas. Empresários do setor, como Celeste Botelho, relatam que muitos preferem os pratos mais baratos do cardápio e até dividem refeições, reduzindo as receitas dos estabelecimentos.
Especialistas indicam necessidade de novo foco estratégico
Diante da estagnação, economistas e especialistas, como João Duque, defendem a revisão da estratégia nacional para evitar um excesso de capacidade e desperdício de investimentos — Lisboa e Porto, por exemplo, já têm cerca de 200 novos hotéis aprovados. O ponto defendido é a transição do turismo de massa para um mercado mais voltado a clientes de alta renda, focando na oferta de experiências exclusivas e sofisticadas.
Segundo André Gomes, esta será a aposta do Algarve, maior região turística do país, com promoção de serviços como gastronomia premium, golfe e roteiros diferenciados para públicos exigentes. A meta é aumentar os gastos por visitante, e não mais o volume de turistas em si.
Repercussão entre moradores e perspectivas futuras
Para parte da população, a desaceleração não é negativa. A volta do atendimento focado em moradores e menor lotação em pontos turísticos agrada. Os setores empresariais, porém, precisarão se ajustar à nova realidade, priorizando criatividade e diversificação nos serviços oferecidos.
O futuro do turismo português deve se pautar em equilíbrio: menos foco em volume e mais aposta em qualidade e valor agregado nas experiências, em consonância com tendências internacionais de viagens pós-pandemia.
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