A dívida pública do Brasil atingiu 77,2% do Produto Interno Bruto (PIB) em abril de 2026 e, pela primeira vez, ultrapassou o endividamento do setor privado, que ficou em 75,7% do PIB. O dado foi divulgado no estudo do Centro de Estudos do Financiamento das Empresas Brasileiras (Cefeb), ligado à Fipe, e ressaltado pelo jornal Valor Econômico em 11 de junho de 2026. Esta inversão histórica acende um sinal de alerta para o mercado e para empresas que dependem de crédito.
Governo pressiona mercado e juros sobem
O fenômeno conhecido como "crowding out" está mais evidente: quando o governo demanda mais recursos no mercado, reduz o espaço disponível para empresas e famílias acessarem crédito e ainda eleva o custo para todos. Embora o setor público seja considerado menos arriscado, sua maior participação contribui para puxar os juros para cima em toda a economia. Segundo o Cefeb, a correlação entre o custo de captação da dívida pública e o custo de financiamento das empresas chegou a 0,97, indicando forte ligação entre os dois mercados.
Impacto maior sobre pequenas empresas e inadimplência recorde
Os efeitos mais negativos recaem sobre as empresas de menor porte, que têm menos opções para buscar financiamento fora do sistema bancário. Em abril, o custo médio das debêntures atingiu 13,68%, enquanto o crédito bancário para empresas chegou a 18,40% ao ano. A diferença nas taxas revela a dificuldade para quem depende dos bancos.
Paralelamente, aumentou a inadimplência no setor empresarial: o índice geral subiu para 4,8%, o maior da série histórica, com destaque para micro e pequenas empresas, que registraram inadimplência de 6%. Já entre as grandes companhias, o índice foi significativamente menor, de 0,5%. Segundo a pesquisa, o número de empresas negativadas no país saltou de 6,66 milhões em janeiro de 2024 para 8,96 milhões em abril de 2026, um aumento de 34,5%.
Empresas buscam mercado de capitais, mas desafios persistem
Com o crédito bancário mais caro e restrito, as empresas passaram a depender mais do mercado de capitais. A participação do mercado de capitais na dívida das companhias abertas subiu de 14,8% em 2022 para 22% em 2026, enquanto a fatia do crédito bancário caiu de 38,4% para 31,2% no mesmo período. Mesmo assim, o crescimento de despesas obrigatórias do governo, como reajustes reais do salário mínimo e reindexação de gastos com saúde e educação, mantém a pressão sobre o caixa do Estado e eleva ainda mais a necessidade de captação.
Fazenda busca solução para prêmio de risco elevado
Rogério Ceron, secretário-executivo do Ministério da Fazenda, reconheceu o impacto do cenário fiscal e das condições internacionais nos juros de longo prazo. Ceron defendeu mudanças para limitar o volume de títulos privados incentivados, como debêntures, LCIs e LCAs. Segundo ele, a emissão desses papéis hoje já supera a poupança de longo prazo disponível no Brasil, agravando o descompasso entre oferta e demanda por crédito de qualidade.
O avanço da dívida pública segue como um dos principais desafios para o equilíbrio macroeconômico brasileiro nos próximos anos. O governo terá de buscar uma combinação de ajuste fiscal e estímulo ao crédito privado para evitar que o custo do dinheiro siga elevado e prejudique a retomada econômica.
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