A dívida pública brasileira alcançou 77,2% do PIB em abril de 2026, superando a dívida do setor privado, que está em 75,7%. Esses dados foram revelados por um estudo do Centro de Estudos do Financiamento das Empresas Brasileiras (Cefeb), da Fipe, publicado pelo jornal Valor Econômico. Este crescimento expressivo da dívida pública gera preocupações sobre o chamado "crowding out", fenômeno em que o governo absorve uma fatia maior dos recursos disponíveis no mercado, reduzindo assim o espaço para que empresas e famílias possam obter crédito.
Impactos do aumento da dívida pública
Até o final de 2025, tanto a dívida pública quanto a privada avançavam a passos semelhantes, acompanhando a expansão do crédito na economia. Contudo, a situação mudou drasticamente em abril de 2026, com um aumento significativo na dívida pública. Uma das razões para isso é que o governo, por ser considerado um tomador de menor risco, consegue competir por recursos financeiros, o que acaba por elevar o custo do dinheiro para o setor privado. Roberto Troster, coordenador do Cefeb, destaca que "o governo demanda mais recursos, e isso eleva o prêmio de risco e os juros para quem toma financiamento".
O estudo aponta uma correlação de 0,97 entre o custo de captação da dívida pública e o custo da dívida das empresas. Isso significa que o Estado atua como uma espécie de "preço-âncora" no mercado financeiro. Quando o governo paga mais para se financiar, as empresas também enfrentam custos mais altos. Este impacto se torna mais evidente para empresas menores, que têm menos opções para captar recursos.
Aumento nos custos de financiamento
O custo médio das debêntures subiu para 13,68%, enquanto o crédito bancário para pessoas jurídicas alcançou 18,40%. Essa diferença de 4,53 pontos percentuais representa um desafio significativo para as empresas que dependem dos bancos, dificultando a emissão de dívidas a custos sustentáveis. Troster ressalta que "emitir dívida a esse custo impõe uma linha de destruição de valor para a maioria dos setores da economia real".
A inadimplência no setor empresarial também apresenta um crescimento alarmante, com um aumento de 4,8%, atingindo o maior nível histórico de 6% entre micro e pequenas empresas. Nas grandes corporativas, essa taxa é de apenas 0,5%. O número de empresas negativadas saltou de 6,66 milhões em janeiro de 2024 para 8,96 milhões em abril de 2026, um crescimento de 34,5%. Com mais atrasos nos pagamentos, os bancos tendem a adotar critérios mais rigorosos para a concessão de crédito, enquanto as empresas podem optar por adiar investimentos e priorizar a redução de dívidas.
O futuro da dívida pública e suas consequências
O fenômeno da alta na dívida pública é ainda mais preocupante, pois as empresas brasileiras estão se tornando mais dependentes do mercado de capitais. A participação desse segmento na dívida das companhias abertas aumentou de 14,8% para 22% entre 2022 e 2026, enquanto a fatia do crédito bancário caiu de 38,4% para 31,2%. Além disso, o crescimento das despesas obrigatórias, como a política de reajuste do salário mínimo, também é um fator que contribui para a pressão sobre a dívida pública.
Especialistas já alertam que o novo arcabouço fiscal do governo pode ter um impacto direto na trajetória da dívida pública. O cenário atual exige atenção tanto do governo quanto do setor privado, pois os desafios financeiros se intensificam e podem ter repercussões significativas sobre a economia brasileira como um todo.
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