A economista Dorothea Werneck, de 78 anos, marcou a história do Brasil como a primeira e única mulher a chefiar o Ministério do Trabalho, no período entre 1989 e 1990, durante o governo de Fernando Collor de Mello. Nesta segunda-feira (10), Werneck lançou sua autobiografia em um evento realizado na sede da Fiesp, em São Paulo, reafirmando sua atuação pioneira e dando voz a reflexões sobre sua trajetória em diferentes gestões presidenciais.
Uma trajetória construída pelo acaso e pelo mérito
Filha do interior de Minas Gerais, Dorothea sempre prezou pelo profissionalismo, independentemente do ambiente predominantemente masculino em que atuou. Sua carreira começou de forma inusitada, quando um episódio no vestibular mudou sua trajetória acadêmica e a encaminhou à economia. Decidida, ela buscou formação superior, fez mestrado e doutorado, e deu aulas até perceber que buscava um novo desafio.
Sua chegada ao cenário público ocorreu "quase por acidente", nas palavras dela, quando aceitou um convite para ingressar no Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). Desde então, ascendeu ao protagonismo, chegando a comandar ministérios e se tornando referência para gerações de mulheres na política e na gestão.
Avaliação dos presidentes e liderança feminina
Dorothea Werneck destaca que, ao longo de mais de uma década no coração do poder público (1985-1996), trabalhou sob quatro presidentes distintos. Ela avalia cada um sob três critérios: competência técnica, habilidade executiva e habilidade política. Entre eles, considera Fernando Collor de Mello o melhor chefe que teve pela capacidade de coordenar ações, mobilizar times e cobrar resultados. "Ele fazia as coisas acontecerem. Foi o melhor chefe que já tive na Presidência da República", afirmou, ressaltando, no entanto, que Collor carecia de habilidade política para articular consensos.
Sobre Fernando Henrique Cardoso, Werneck reconheceu uma excelência técnica, porém com falhas de gestão de equipes. Seus comentários acerca dos presidentes mais recentes foram ainda mais diretos: enaltece o equilíbrio de Lula entre bagagem sindical e política, mesmo com escolhas por vezes mais partidárias; já a respeito de Jair Bolsonaro, criticou severamente a falta de base técnica e as posturas conflituosas.
Superando preconceitos e celebrando conquistas
Werneck relata que nunca se deixou limitar por ser, frequentemente, a única mulher entre dezenas de homens. Para ela, o termo "profissional" sempre foi a sua escolha, pois representa igualdade. O episódio polêmico em que o então presidente da Fiesp, Mario Amato, afirmou que ela era "inteligente apesar de ser mulher", acabou batizando sua primeira obra, "Apesar de Ser Mulher" (1990), e serviu de combustível para seguir quebrando barreiras.
Décadas depois, a economista compartilha suas experiências e aprendizados em um novo livro: "Aprendendo e Vivendo: Uma biografia Contada por Histórias e Versos". Nele, Werneck compartilha causos, visão de mundo e lições de liderança, inspirando mulheres e profissionais de todas as áreas.
Legado e próximos passos
O lançamento da nova autobiografia coloca em evidência o papel fundamental de Dorothea Werneck na história recente do Brasil e reforça a necessidade de ampliar o espaço das mulheres na administração pública e na política. A expectativa é que o livro contribua para o debate sobre liderança feminina, profissionalismo e ética no serviço público.
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