O Brasil enfrenta uma fase de vulnerabilidade econômica marcada pelo risco de crescimento pífio, inflação persistente e desafios fiscais cada vez maiores, segundo os economistas Marcos Lisboa (Gibraltar Consulting) e Solange Srour (UBS Global Wealth Management). As análises foram apresentadas em debate promovido pelo Estadão sobre os caminhos da economia no futuro próximo.

Estagnação acompanha inflação e juros elevados

Lisboa afirma que o país patina no crescimento, ficando atrás de outras economias emergentes e desenvolvidas. Episódios recorrentes de crises e desacelerações são agravados, de acordo com ele, por uma política econômica que privilegia incentivos à demanda, protecionismo e subsídios, herança das décadas de 1950 a 1970. Para o economista, esse modelo favoreceu desequilíbrios fiscais e episódios inflacionários, como nos governos Juscelino Kubitschek, João Goulart, Ernesto Geisel e, mais recentemente, durante a recessão associada à gestão Dilma Rousseff.

Segundo Lisboa, sem superar esse paradigma, o Brasil seguirá exposto à instabilidade. "Ou a gente supera essa visão de economia, ou vamos continuar nesse mar de dificuldades", alertou.

Crise fiscal e resistência na queda dos juros

Já Solange Srour considera que a solução dos desafios fiscais é crucial para a retomada do crescimento e para a redução dos juros praticados pelo Banco Central do Brasil (BCB). Ela aponta o elevado nível da dívida pública e o forte aumento dos gastos como fatores críticos. Isso tem consequências diretas na economia: juros altos, crescimento da inadimplência e comprometimento da renda das famílias.

"A compreensão do quadro fiscal ainda é superficial no país. O problema se agravou muito em relação há quatro ou oito anos, dado o endividamento e o ritmo dos gastos", destacou Solange. O cenário, segundo ela, prenuncia uma desaceleração já praticamente "contratada". Mesmo com a perda de fôlego econômico, a falta de uma agenda fiscal crível pode impedir que o BCB tenha espaço para reduzir a taxa Selic, devido à deterioração das expectativas e possíveis pressões cambiais.

Proteção momentânea e riscos externos

Apesar da conjuntura doméstica delicada, fatores externos, como os preços das commodities e a balança comercial favorável, funcionam como amortecedores para a economia brasileira. No entanto, Solange ressalta que esse cenário pode se reverter rapidamente, caso ocorram choques internacionais, como elevação da inflação ou dos juros nos Estados Unidos.

Lisboa concorda que o Brasil aproveita pouco os momentos positivos do mercado global para corrigir seus desequilíbrios e, quando o cenário externo piora, o país sofre proporcionalmente mais que outros emergentes.

Próximos passos e necessidade de reformas

Os especialistas destacam que, sem reformas estruturais e uma gestão fiscal consistente, o país permanece suscetível a choques externos e crises recorrentes. O desafio para o próximo governo será elaborar uma agenda capaz de romper com paradigmas antigos, controlar gastos e criar ambiente propício para a recuperação sustentável do crescimento econômico.

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