A crescente perda de poder de compra das famílias brasileiras está desencadeando um ciclo econômico desfavorável que pode resultar em cortes de vagas no setor de varejo no prazo de até 12 meses. É o que revela uma pesquisa inédita do Ibevar-FIA Business School, que analisou como a queda na renda e o uso do crédito para despesas essenciais resultam em inadimplência, impactando diretamente o emprego.
Crédito como mecanismo de sobrevivência
Segundo o levantamento, 22,3% do endividamento das famílias em um ano está ligado diretamente à redução do rendimento real e à necessidade de manutenção do consumo básico nos segmentos de supermercados, farmácias e vestuário. Claudio Felisoni, presidente do Ibevar e professor da FIA Business School, pontua que esse movimento é um mecanismo quase automático de defesa das famílias diante da inflação: quando a renda diminui, o crédito passa a cobrir as despesas essenciais, atrasos aumentam e, eventualmente, esses atrasos se transformam em inadimplência.
No primeiro mês, o estudo observou que o endividamento depende basicamente da própria dinâmica da dívida (94,5%), impulsionada pela rolagem e pelos juros. Após 12 meses, a inércia da dívida cai, e o impacto do consumo básico passa a ser mais preponderante. O rombo financeiro, portanto, deixa de ser apenas consequência de juros altos e passa a ser reflexo da tentativa de sobrevivência.
Inadimplência e inflação formam ciclo negativo
A pesquisa mostra também que o calote grave começa pequeno – atrasos em contas de 15 a 90 dias – mas avança para dívidas maiores, sobretudo nas modalidades mais caras do crédito como cartão e cheque especial. Após um ano, 65,1% das dívidas nessas modalidades são fruto dos pequenos atrasos motivados pelo aperto orçamentário.
Esse quadro contribui para 11% das “surpresas” inflacionárias do IPCA no período, já que a inadimplência crescente amplia o risco percebido pelos bancos, que, em resposta, encarecem o crédito. Isso gera mais custos tanto para produtores quanto para consumidores, agravando o ciclo.
Varejo sustenta, mas depois sofre
Quando o consumidor direciona sua renda e crédito apenas para a subsistência, o ritmo do varejo desacelera. O levantamento indica que o segmento de varejo restrito é responsável por explicar 21,8% da variação do emprego no setor após 12 meses. O mercado de trabalho até resiste inicialmente, mas com redução do ritmo: após seis meses, a autonomia na criação de vagas despenca de 68,3% para 45,2%. Persistindo o atraso nas contas e a retração do consumo, os cortes acabam acontecendo.
Perspectiva de agravamento no horizonte
A equipe técnica da pesquisa estima 55% de probabilidade de agravamento desse quadro nos próximos 12 meses, especialmente por conta do aumento de gastos públicos característico dos anos eleitorais. Isso dificulta a consolidação fiscal, pressiona o prêmio de risco do país e limita o espaço para corte de juros – o que poderia aliviar o endividamento e estimular o varejo.
A chance de estabilização (45%) depende de acordos em torno do arcabouço fiscal e do controle do gasto público. Para especialistas, limitar o avanço da taxa média de juros e alongar prazos pode dar ao Banco Central mais poder de ancorar as expectativas, favorecendo uma recuperação do consumo e do emprego.
O quadro reforça a necessidade de políticas econômicas que combatam não só o endividamento, mas também as causas estruturais da perda do poder de compra dos brasileiros.
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