O elevado nível de endividamento das famílias brasileiras já acende o sinal de alerta para uma possível desaceleração aguda do consumo nacional a partir de 2027. Economistas consideram que o cenário reflete um efeito rebote das atuais expansões do crédito, o que pode resultar em um período de ressaca econômica semelhante ou até mais intenso do que o registrado na última grande recessão do país.

Crédito caro e risco de desaceleração mais forte

O risco se torna mais relevante porque parte expressiva das dívidas foi contratada em linhas de crédito com juros elevados. Modalidades como cartão parcelado, cheque especial e crédito pessoal sem garantia, que são mais onerosas, já representam quase 25% da carteira de pessoas físicas conforme dados do Banco Central do Brasil (BCB), acima dos 20% observados antes da pandemia. Esta fatia atinge principalmente brasileiros de renda mais baixa.

Segundo o estudo do FGV Ibre, em outubro de 2023, 39,3% das contratações de cartão rotativo ocorreram entre pessoas com renda de até dois salários mínimos. Somado a isso, o índice de endividamento das famílias em relação à renda subiu para 49,8%. O valor médio da dívida inadimplida, medido pelo Serasa, chegou a R$ 6.300, praticamente o dobro da média salarial real indicada pelo IBGE.

Consumidor no limite e impacto previsível em 2027

O relatório do BTG Pactual estima que o crescimento do consumo, que chegou a 2% em 2026, pode se limitar a apenas 0,8% em 2027, ou até cair 0,4% caso a renda estagne. Analistas do banco reforçam que a combinação de crédito elevado, juros altos e choques de oferta já pressiona o consumo. "Uma desaceleração desses impulsos pode transformar o endividamento elevado em barreira efetiva ao consumo", alertam.

O Boletim Focus, do Banco Central, já reflete essa avaliação: a expectativa para o crescimento do PIB em 2025 foi reduzida de 1,80% em janeiro para 1,69% em levantamentos mais recentes. O pessimismo é reforçado em análises do setor privado, como a da gestora WHG, que vê risco de um ciclo de crédito mais restritivo se bancos aumentarem taxas e reduzirem concessões.

Especialistas cobram cautela e monitoramento das políticas públicas

A pesquisadora Katherine Hennings (FGV Ibre) alerta que os atuais níveis de emprego, renda e consumo são insustentáveis. Ela compara o cenário a um balão que pode esvaziar lentamente ou estourar abruptamente. O economista Marcos Lisboa pondera que as perspectivas são negativas para 2027 e 2028 se o governo não enfrentar os desequilíbrios fiscais e as distorções acumuladas na economia.

Medidas de estímulo, como o novo consignado privado, já atingem somas próximas a R$ 23 bilhões dentro de um pacote mais amplo de R$ 189 bilhões até o primeiro semestre deste ano, segundo relatório do UBS. Para os especialistas, a trajetória dos próximos trimestres dependerá do comportamento do emprego, renda e, principalmente, da resposta do governo.

O debate sobre como conter uma possível recessão já está em pauta. Os analistas defendem cautela na ampliação de gastos públicos, pois uma elevação sem controle pode agravar ainda mais o cenário de endividamento.

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