Sete meses após o início da guerra envolvendo o Irã, os Estados Unidos e Israel, Teerã segue resistindo, mesmo diante de duras pressões econômicas e danos à sua infraestrutura. A estratégia iraniana parece focar em desafiar o ritmo imposto pelos EUA, buscando elevar os custos militares, econômicos e políticos para seus adversários e pressionar por concessões em futuras negociações.
Capacidade militar sob pressão constante
Apesar de ataques a setores de defesa do Irã, especialmente instalações de mísseis, não há consenso sobre o real impacto na capacidade ofensiva do país. De acordo com análise do think tank Chatham House, ainda é incerta a quantidade de mísseis remanescentes à disposição de Teerã. Mesmo com uma tendência de redução nos volumes lançados, o Irã tem demonstrado habilidade para substituir rapidamente comandantes e manter sua estrutura militar funcional. Além disso, a facilidade de produção de drones e mísseis de cruzeiro permite manter o conflito ativo, embora em menor escala.
O professor Mohammad Ghaedi, da Universidade George Washington, destaca que o controle do Estreito de Ormuz continua sendo uma carta importante para o Irã. Essa região, estratégica para o fluxo de cerca de 20% da produção global de petróleo, pode ser usada para pressionar Washington, ao mesmo tempo em que representa vulnerabilidade se houver bloqueio efetivo.
Desafios econômicos crescentes
A economia iraniana, já debilitada antes da guerra, está sentindo impactos profundos do prolongamento do conflito. Segundo o Banco Mundial, o PIB iraniano recuou aproximadamente 2,7% no exercício de 2025-26. A inflação acumulada chegou a impressionantes 62% em 12 meses, com regiões como Hormozgan superando 101%. Mais de um milhão de empregos foram perdidos, conforme dados do governo local, agravando o quadro social e o desemprego indireto, que atinge cerca de dois milhões de pessoas.
O Fundo Monetário Internacional (FMI) projeta queda de 5,4% para o PIB em 2026 e inflação próxima de 69%. O bloqueio naval americano e as restrições impostas à exportação de petróleo iraniano tornam a recuperação ainda mais remota, apesar de a própria crise alimentar mecanismos de pressão sobre o Ocidente, devido a flutuações no mercado internacional de energia.
Divisões internas e aposta na resiliência
O governo do Irã não é unânime sobre os rumos do conflito. Enquanto o presidente do Parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf, alerta contra uma guerra de desgaste, correntes mais radicais defendem a continuidade do embate mesmo diante de possíveis acordos. Há dúvidas entre líderes sobre até que ponto manter a pressão beneficia ou prejudica o interesse nacional. Analistas ressaltam que apenas grandes protestos internos ou divisões profundas dentro do regime poderiam alterar essa postura militar.
Não há pesquisas confiáveis sobre a opinião da população, mas o risco de instabilidade interna cresce com o agravamento da crise econômica. A manutenção do governo em regimes autoritários, como argumenta o professor Hamidreza Azizi, do Instituto Alemão de Assuntos Internacionais, pode se sustentar por anos, mesmo sob inflação e desemprego elevados, a menos que ocorra quebra de consenso no núcleo do poder.
Perspectivas e possíveis desdobramentos
Um impasse prolongado no Golfo pode afetar as relações diplomáticas entre o Irã e países árabes, além de estimular maior aproximação destes com os EUA. Para Teerã, a resiliência só trará ativos políticos se converter o desgaste do oponente em avanços concretos nas negociações. O dilema atual é transformar pressões táticas em ganhos duradouros antes que o desgaste interno supere a capacidade de sustentação do conflito.
Seja qual for o desfecho, as consequências econômicas e geopolíticas já desafiam o governo iraniano e intensificam as incertezas para o mercado global. Fique por dentro das últimas notícias do Brasil e do mundo em brazileconomy.world
