Os recentes ataques russos a navios civis no Mar Negro aprofundaram a crise de exportação agrícola da Ucrânia. Até então, os portos da região de Odessa respondiam por cerca de 90% das exportações de grãos do país. Com essa rota comprometida, o governo ucraniano tenta viabilizar alternativas como ferrovias, rodovias, áreas fluviais e uma possível nova rota via Moldávia.
Buscas por rotas alternativas agravam incertezas globais
Especialistas afirmam que não há solução viável para substituir o transporte marítimo em larga escala, especialmente diante da magnitude da safra ucraniana. Para o Brasil, segundo maior exportador de grãos mundial, o aperto no abastecimento ucraniano pode gerar volatilidade e pressionar preços de alimentos, sobretudo em commodities como milho, trigo e cevada — produtos fundamentais para o agronegócio nacional e para a cadeia de alimentação animal no país.
Dificuldades para produtores e risco de colapso interno
De acordo com Denys Martschuk, vice-presidente do Conselho Agrícola da Ucrânia, mais de 28 milhões de toneladas de grãos e leguminosas já foram colhidas em 2023, mas a maior parte está armazenada, sem compradores e sem espaço extra para estoques. A queda na receita limita o avanço do plantio de inverno e pode obrigar muitos produtores a abandonar as safras ou deixar o milho nos campos, amplificando os riscos de perdas futuras.
Martschuk alerta que a crise será intensificada na entrada das próximas safras, especialmente devido à destruição de silos e à escassez de energia para secagem. O milho, por exemplo, deve atingir a marca de 33 milhões de toneladas nesta temporada, com déficit projetado de até 10 milhões de toneladas em capacidade de armazenamento no outono europeu. Os prejuízos já ultrapassam US$ 20 bilhões, segundo o Ministério da Política Agrária da Ucrânia.
Exportações encolhem e preços despencam
O analista Maksym Hopka aponta que as exportações de julho caíram para 3,7 milhões de toneladas, sendo 2,7 milhões de cereais, mais de 25% de redução frente ao mês anterior. Para agosto, pode haver nova queda de até 50% no volume exportado. Isso pressiona os preços domésticos: o trigo para consumo humano já acumulou recuo de 35% e a cevada, em torno de 30%. Calcula-se que muitos agricultores já não conseguem cobrir custos e pequenas propriedades operam no prejuízo.
Limites logísticos e cenário internacional adverso
A tentativa de expandir o transporte por ferrovia e via Danúbio encontra barreiras. A seca prejudica a navegação fluvial e as ferrovias ucranianas possuem hoje 30% menos trens que em 2022, agravado por ataques russos à infraestrutura. Caminhoneiros também são poucos, em razão da mobilização militar. A União Europeia, que em 2022 flexibilizou regras para facilitar a "ponte de solidariedade", em 2023 retomou parte das restrições comerciais e tarifárias, dificultando ainda mais as exportações alternativas.
O que esperar para o mercado brasileiro e global?
O Brasil tem participação relevante na oferta mundial de milho e soja, e a diminuição das exportações ucranianas pode causar elevação desses preços nos mercados globais, beneficiando alguns segmentos do agronegócio brasileiro. Por outro lado, insumos à base de grãos importados e derivados podem encarecer, elevando custos ao consumidor nacional, principalmente em carnes, ovos e laticínios.
Enquanto o governo ucraniano negocia créditos emergenciais com a União Europeia (até 220 milhões de euros em apoio direto), o setor global de alimentação segue atento: a persistência da crise no Mar Negro ameaça não só a produção e exportação ucraniana, mas todo o equilíbrio de oferta de alimentos no mundo, incluindo impactos diretos e indiretos sobre o Brasil.
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