Apesar de a inflação anual argentina ter registrado queda significativa após a posse de Javier Milei, o humor social do país vizinho segue negativo. Uma pesquisa recente da consultoria Hugo Haime Associados, publicada nesta semana, indica níveis elevados de tristeza e raiva entre os argentinos, mesmo diante de melhores indicadores econômicos.

Pesquisa revela descontentamento persistente

Segundo o levantamento, 42% dos entrevistados afirmaram sentir tristeza e desânimo em relação ao governo Milei, enquanto 34% disseram estar com raiva. Apenas 20% demonstraram algum entusiasmo, e 4% preferiram não opinar. O estudo, diferentemente de pesquisas convencionais de popularidade, procurou captar o sentimento social do país neste momento de transição.

A inflação na Argentina, que ultrapassava 60% ao ano no final do governo Alberto Fernández, caiu para cerca da metade durante o primeiro ano do governo Milei. Apesar deste avanço, a população ainda sente que não houve melhora real em seu cotidiano, especialmente em relação ao poder de compra dos salários e ao acesso ao crédito.

Impactos econômicos ainda não chegam à população

A percepção de que a recuperação econômica não se materializou na vida dos argentinos é reforçada pela pesquisa. O consumo segue retraído, o crédito permanece caro e várias famílias organizam o orçamento baseando-se na crise vivida em anos anteriores. A cultura de guardar dinheiro "no colchão", como forma de precaução, continua presente no país.

Os indicadores econômicos sinalizam uma melhora inicial, mas a maioria da sociedade julga que essas mudanças são distantes ou insuficientes, pelo menos por enquanto. O poder aquisitivo dos salários não acompanhou a redução da inflação, alimentando o sentimento de insatisfação.

Contexto político: confrontos e tensões diplomáticas

O estilo confrontador de Javier Milei permanece visível na condução do governo, com embates frequentes contra opositores, imprensa e até líderes estrangeiros. Nos últimos meses, conflitos com países vizinhos, incluindo o Brasil, ganharam destaque e resultaram até na saída do embaixador brasileiro em Buenos Aires. Dentre os episódios mais recentes, estão disputas também com Espanha, Chile, Colômbia e China, geralmente intensificadas em momentos de maior pressão interna.

Segundo analistas, essas crises externas muitas vezes servem para mobilizar a base fiel de Milei e transferir o foco do debate público para disputas políticas. Apesar disso, a sensação interna de perda do poder de compra segue central para o humor da sociedade.

Próximos passos: Milei precisa reconquistar a confiança social

A pesquisa aponta que, em anos anteriores, a principal preocupação popular era a corrupção. Agora, entretanto, a queda do poder de compra dos salários ocupa o centro das atenções. Ainda que os índices oficiais indiquem uma inflação em trajetória de queda, o desafio do governo argentino será traduzir esses resultados em benefício perceptível à população.

Com eleições no horizonte para o próximo ano, Milei terá de enfrentar não apenas os indicadores macroeconômicos, mas também a batalha pelo humor social, que se mostra resistente à melhora dos números.

Fique por dentro das últimas análises de economia internacional e política latino-americana em brazileconomy.world.