O mercado de crédito no Brasil atravessa um ambiente de crescente apreensão, com nuvens de incerteza sendo formadas por fatores como inadimplência elevada e o clima de cautela adotado por bancos e gestores. Em junho, a inadimplência alcançou 4,7%, patamar considerado historicamente alto, enquanto o endividamento das famílias ficou em 49,8%, conforme dados do Banco Central do Brasil (BCB) referentes a maio, evidenciando a pressão sofrida pelo setor.

Sinais de preocupação surgem nas falas dos executivos

Mais do que dados concretos, o que vem deixando o setor em alerta são as recentes declarações — tanto públicas quanto em bastidores — de executivos de grandes bancos e gestores do mercado. Mesmo com o avanço em modelos de concessão de crédito baseados em dados e inteligência artificial, o sentimento de apreensão permanece, especialmente diante do cenário macroeconômico adverso, marcado por juros elevados e crescimento econômico modesto.

A combinação de fatores, como inflação acima do previsto, impacto de crises internacionais e elevado comprometimento de renda, tem levado os bancos a adotar posturas mais conservadoras na concessão de crédito. "Vai haver uma desalavancagem forçada da pessoa física. Não sei será o gatilho, mas vai acontecer", afirmou reservadamente o presidente de um grande banco do país, refletindo o ambiente de cautela.

Impacto do cenário macroeconômico sobre o crédito

Além dos indicadores de inadimplência, segmentos como pequenas e médias empresas (PMEs) e o agronegócio também preocupam devido à sensibilidade ao ciclo econômico e aos efeitos do fenômeno El Niño. Grandes empresas endividadas também tendem a pressionar os índices de inadimplência, mesmo que os casos problemáticos ainda sejam minoritários.

No crédito privado, apesar de spreads e inadimplência sob aparente controle, houve desaceleração nas emissões de debêntures no segundo trimestre, sinalizando menor apetite para novas operações. Executivos de bancos privados, como Carlos Muñiz (Santander) e Milton Maluhy Filho (Itaú Unibanco), destacaram nas divulgações de resultados do segundo trimestre a necessidade de prudência e de priorizar linhas de crédito mais seguras, como o consignado e operações colateralizadas.

O papel da política econômica

A possibilidade de redução da taxa Selic depende de sinais de compromisso fiscal do próximo governo, segundo análise dos banqueiros. Até o momento, não há indicação clara de que um ajuste fiscal robusto será implementado, o que limita as perspectivas de um alívio mais rápido nos juros e, consequentemente, melhora das condições de crédito.

Marcelo Noronha, CEO do Bradesco, destacou a priorização de modalidades como o crédito consignado para pessoas físicas, evitando exposição a operações de maior risco. O agronegócio e o segmento de pessoa física seguem como pontos de atenção particular nas análises dos bancos.

Perspectivas e desafios à frente

Com experiências recentes de crises, como a Lava-Jato, a recessão de 2016 e a pandemia de covid-19, as instituições financeiras reforçaram seus mecanismos de gestão de risco. Ainda que aumento da inadimplência não seja inevitável, os sinais e a intuição dos banqueiros servem de alerta: ignorar esses sinais pode ser um erro estratégico.

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