O clima entre empresários e investidores brasileiros foi marcada por forte pessimismo durante a terceira edição da Brazil CEO Conference, promovida pela XP Inc. nesta semana no Rio de Janeiro. O evento reuniu 106 empresas e cerca de 500 investidores, totalizando mais de 700 reuniões que revelaram preocupações recorrentes, especialmente sobre a desaceleração da economia, endividamento crescente e o avanço da inadimplência.

Principais preocupações: desaceleração, crédito e cenário eleitoral

De acordo com analistas da XP, o sentimento de pessimismo atingiu níveis historicamente elevados, servindo como um potencial indicador contrário do ciclo econômico. Entre as maiores inquietações dos participantes estavam:

  • Desaceleração econômica além da expectativa, com destaque para a queda no consumo, atribuída à menor movimentação no varejo durante a Copa do Mundo e ao peso do endividamento das famílias;
  • Crescente risco de inadimplência e deterioração do crédito, tanto para empresas como para pessoas físicas;
  • Incertezas sobre eleições e política fiscal, especialmente diante do quadro fiscal mais apertado.

Varejo sente impactos, mas há resiliência em alguns segmentos

No varejo, empresas como Lojas Renner (LREN3) e C&A (CEAB3) relataram queda de tráfego nas lojas e maior sensibilidade do consumidor a preços, o que pressionou estoques e reduziu investimentos. O Magazine Luiza (MGLU3), porém, conseguiu registrar crescimento nas vendas físicas e capturar parte da demanda vinda do fechamento de unidades da Casas Bahia, além de redução da inadimplência em sua carteira de crédito. Setores como farmácias, plataformas digitais e shopping centers registraram desempenho mais sólido, enquanto vestuário e itens discricionários enfrentaram maiores desafios.

Alta dos juros pressiona crédito e aumenta inadimplência

As discussões também apontaram para a deterioração da qualidade do crédito. O Itaú Unibanco (ITUB4), por exemplo, destacou maior necessidade de cobrança e monitoramento após prolongamento do ciclo de juros elevados. O Banco do Brasil (BBAS3) apontou a inadimplência do crédito rural como fator preocupante, impulsionado por produtores que aguardam novos pacotes de auxílio. O Bradesco (BBDC4) relatou pressão no crédito para pequenas e médias empresas, reflexo do final dos períodos de carência dos financiamentos.

Em setores como distribuição de energia, a inadimplência também foi sinalizada. Segundo o BR Partners (BRBI11), o cenário prolongado de juros altos vem comprometendo fundamentos financeiros de empresas e consumidores, com expectativa de aumento dos casos de estresse nos próximos meses.

Oportunidades e expectativas futuras

Apesar do pessimismo generalizado, a XP aponta que as assimetrias de preços podem abrir oportunidades, especialmente nos setores de petróleo, gás e combustíveis. O alerta, porém, persiste para novas revisões negativas de lucros e possíveis impactos eleitorais na volatilidade do mercado.

O ambiente continuará sendo monitorado de perto por investidores e empresas, buscando estratégias mais defensivas em meio ao cenário incerto. A expectativa é que o tema inadimplência siga no centro do debate ao menos até o fim de 2026, com atenção redobrada ao comportamento do crédito e aos rumos da política fiscal.

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