O debate sobre a existência de políticas de Estado de médio e longo prazo no Brasil revela, de acordo com especialistas, uma carência histórica de projetos nacionais que transcendam interesses setoriais e ciclos eleitorais. Embora existam avanços relevantes, predominam remendos imediatistas motivados por pressões pontuais e interesses do governo em vigor, em detrimento de uma visão estratégica para o futuro do país.
Exemplos históricos: agricultura tropical e bioenergia
No entanto, o Brasil já apresentou políticas de Estado bem-sucedidas. Dois marcos importantes nasceram na década de 1970: o desenvolvimento da agricultura tropical moderna e a criação do Programa Nacional do Álcool (Proálcool). Essas iniciativas, concebidas sob contexto autoritário, mas com foco estratégico, pavimentaram a liderança brasileira em segurança alimentar e energética em âmbito global.
A Embrapa simboliza esse movimento transformador, criada em 1973, somando esforços a centros de pesquisa estaduais e universidades. Com incentivos públicos, como crédito farto, assistência técnica (Emater) e estruturas de defesa agropecuária, foi possível reverter as limitações do Cerrado e integrá-lo à principal fronteira agrícola do mundo. A parceria entre Estado e setor privado ampliou a produção de grãos, carnes, açúcar, celulose e algodão, entre outros produtos.
Evolução do setor privado e inovação
No caso da bioenergia, o Proálcool lançado em 1975 após o choque do petróleo provocou uma revolução na matriz energética. O governo iniciou políticas de incentivo ao etanol, determinando misturas obrigatórias, impulsionando a indústria automotiva a álcool e ampliando o acesso ao combustível nos postos. Com o tempo, o setor privado inovou ao lançar veículos flex, promover novas tecnologias, originando o RenovaBio, além de expandir para biocombustíveis náuticos, aviação sustentável, biogás, biometano e biorrefinarias – consolidando o protagonismo nacional em energia renovável.
O modelo público-privado e desafios atuais
Os casos da agricultura e da bioenergia ilustram a eficácia de políticas estruturantes: o governo criou ambiente propício, investiu em pesquisa básica e assumiu riscos iniciais, para depois transferir protagonismo ao mercado. No entanto, essas experiências ainda são exceção. Áreas como fertilizantes, bioinsumos, mineração, internacionalização de biocombustíveis, logística, armazenagem, seguro rural e resiliência climática carecem de políticas equivalentes.
A urgência de uma visão estratégica
Às vésperas de eleições decisivas, o debate sobre a necessidade de políticas de Estado volta à tona. Recursos naturais, tecnologia e capacidade de inovação não faltam ao Brasil; falta coordenação e um projeto nacional capaz de unir governo, setor privado e sociedade civil em torno de objetivos duradouros. Retomar a visão estratégica que marcou a agricultura tropical e a bioenergia pode ser o caminho para mudar esse cenário.
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