A recente pesquisa trimestral sobre condições de crédito divulgada pelo Banco Central do Brasil (BCB) revela um cenário de atenção para o crédito corporativo, em meio a um contexto de recorde em recuperações judiciais de empresas. Apesar do aumento na quantidade de pedidos de proteção judicial, os dados indicam que a inadimplência empresarial ainda está distante dos picos históricos, sugerindo que o setor permanece resiliente, ainda que sob maior escrutínio dos bancos.

Recorde de recuperações judiciais e atual percepção do risco

Segundo o levantamento do BCB apresentado nesta quinta-feira (20), houve um número inédito de empresas buscando recuperação judicial no país nos últimos meses. Entretanto, quando se observa o índice de inadimplência das empresas no Sistema Financeiro Nacional, o índice em junho ficou em 3,2%, o que representa um avanço de 0,5 ponto percentual em doze meses, mas aponta para um patamar inferior ao máximo da série recente. Em 2017, no auge do estresse, esse percentual chegou a 4,1%. No crédito livre, o atual índice de 4,0% ainda se mostra bem abaixo dos 6,1% registrados no pior momento daquele ciclo.

Por que o cenário não representa crise generalizada?

A diferença entre o número absoluto de recuperações judiciais e a severidade financeira das mesmas é fundamental para a análise de risco. Muitas dessas recuperações envolvem pequenas empresas, cujo impacto total é relativamente pequeno se comparado com grandes corporações em crise. O risco efetivo para o investidor, portanto, está mais relacionado a quanto crédito problemático existe e não apenas à quantidade de pedidos judiciais.

Além disso, o BCB destacou em seu Relatório de Estabilidade Financeira que, embora haja cautela por parte dos bancos e maior seletividade na concessão de crédito, especialmente para empresas de porte médio, a materialização do risco de inadimplência não aumentou drasticamente. Receitas e Ebitda seguem em níveis que ainda permitem a manutenção dos indicadores de cobertura de juros e endividamento dentro de padrões aceitáveis nas companhias abertas.

Famílias mostram piora mais acentuada

Enquanto o crédito para empresas mostra deterioração controlada, o universo de pessoas físicas preocupa mais. Em junho, a inadimplência das famílias atingiu 5,6%, um avanço expressivo de 1,2 ponto percentual em doze meses. No segmento de crédito livre, esse número já chegou a 7,6%. Ainda assim, está um pouco abaixo dos piores momentos identificados em 2015/2016, mas já exige maior vigilância.

O que significa para quem investe em crédito privado?

O cenário atual reforça a necessidade de uma abordagem mais criteriosa por parte do investidor em crédito privado. Em vez de fugir completamente dessa classe de ativos devido ao volume de recuperações judiciais, é importante analisar com profundidade os emissores, avaliando geração de caixa, saúde financeira, nível de endividamento, garantias oferecidas e capacidade de atravessar períodos adversos.

A diversificação da carteira permanece imprescindível. Embora o número de empresas em recuperação judicial seja elevado, os dados de inadimplência efetiva ainda sinalizam que o risco para a carteira de renda fixa permanece sob controle, quando bem diversificada e montada com critérios sólidos.

Perspectivas: ajuste e cautela, mas sem pânico

Para os próximos meses, a tendência é de continuidade na política de maior seletividade dos bancos e manutenção de condições mais restritivas na concessão de crédito. O investidor deve acompanhar atentamente a saúde financeira dos setores selecionados, preferindo emissões de empresas sólidas e bem avaliadas quanto ao risco de crédito.

Em resumo, embora o recorde de recuperações chame a atenção, não há sinais claros de crise sistêmica para o crédito privado corporativo – o cuidado deve ser na seleção, e não na fuga em massa do segmento.

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