O Brasil registra atualmente um momento de renda média recorde entre os trabalhadores e taxas de desemprego em níveis historicamente baixos. Apesar desse cenário positivo à primeira vista, o orçamento das famílias segue cada vez mais apertado diante do avanço persistente da inflação e de taxas de juros elevadas, que dificultam o pagamento de dívidas e impulsionam a inadimplência.

Inflação dos alimentos pesa no bolso do brasileiro

De acordo com André Braz, coordenador dos Índices de Preços do FGV Ibre, a inflação dos alimentos tem superado em muito a média dos outros itens do IPCA. Desde 2020, a alimentação no domicílio saltou 63%, enquanto o índice geral subiu 43%. Isso pressiona principalmente famílias de baixa renda, que destinam grande parte do orçamento para alimentação. "Está muito mais caro colocar comida na mesa", reforça Braz.

Eventos globais e climáticos individuais contribuíram para a alta nos preços dos alimentos. A pandemia de 2020, a crise hídrica de 2021 e o conflito europeu em 2022, impactando commodities como soja, trigo e fertilizantes, geraram sucessivas ondas de encarecimento. Em 2024, os reflexos do El Niño voltaram a pressionar preços, e novas ameaças climáticas, câmbio desfavorável e conflitos globais seguem como riscos para os próximos anos.

Salários crescem, mas ganhos são desiguais entre grupos

Segundo Andréa Angelo, estrategista de inflação da Warren Investimentos, ferramentas como o Salariômetro/Fipe mostram ganhos reais em reajustes salariais desde meados de 2023, com ganhos médios próximos de 1% acima da inflação medida pelo INPC. No entanto, esse cenário não alcança toda a população: trabalhadores com menor força sindical ou autônomos ficam de fora dos reajustes. O consumo de serviços segue aquecido pelo aumento da renda, mantendo a inflação do setor acima de 6% ao ano e respondendo por 35% do IPCA.

Juros altos elevam custo do crédito e amplificam inadimplência

Apesar do maior acesso ao crédito ser, em tese, positivo, o ambiente de Selic alta — atualmente em 14% ao ano — torna o custo das dívidas proibitivo para muitas famílias. Para o economista Rodolpho Tobler (FGV Ibre), os juros elevados aceleram o aumento do saldo devedor e prejudicam a sustentabilidade financeira das famílias quando a inadimplência — dívidas acima de 90 dias — sobe. O endividamento extensivo passa a ser um risco se não vier acompanhado da capacidade de quitação dos compromissos.

Mudança de hábitos também pressiona finanças familiares

Outro fator que afeta o consumo é o crescimento das apostas esportivas online, as chamadas "bets". Dados do governo estimam que cerca de R$ 60 bilhões ao ano são desviados do consumo e da quitação de dívidas em direção a esse segmento. Isso contribui para a manutenção do orçamento doméstico apertado, mesmo com recordes na massa salarial.

Perspectivas para os próximos anos

A combinação de inflação elevada, crédito caro e mudança nos hábitos de consumo deixa em alerta economistas e analistas do mercado financeiro. O quadro de salário real crescente pode não ser suficiente para restabelecer a saúde financeira das famílias caso as condições de inflação e juros não melhorem. O debate sobre medidas de estímulo ao consumo responsável e à educação financeira ganha mais força no país.

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